Histórias de meninas e mulheres santificadas frequentemente são narradas a partir do que preservaram ao morrer, como a virgindade e a honra. Contudo, essas vidas interrompidas por violência revelam mulheres lutando por autonomia e liberdade. No século XIX, Romana, uma mulher escravizada no Ceará, resistiu a assédios, buscando controlar seu próprio corpo em uma sociedade que não reconhecia seus direitos.
O Santuário da Santa Cruz da Romana, em Meruoca, preserva sua memória. A devota Dayane Liberato destaca a conexão espiritual do local e relaciona a história de Romana com o machismo contemporâneo. Ela menciona um projeto voltado para mulheres, buscando empoderamento feminino.
Outra história é a de Maria Alice, assassinada em 1924 em São Gonçalo do Amarante, após rejeitar as investidas de Domingos Madaleno. Moradores relatam que, em seus últimos momentos, ela perdoou seu agressor, e o local se tornou um memorial.
Essas narrativas, embora distintas, evidenciam a dificuldade histórica de reconhecer a autonomia feminina. A defensora pública Janaynna Nobre ressalta que o ‘não’ de uma mulher frequentemente resulta em violência. Essa realidade é sustentada por uma cultura de misoginia e patriarcado que desumaniza as mulheres.
A violência de gênero se manifesta não apenas em agressões físicas, mas também na normalização de ofensas e na objetificação das mulheres. Estudos, como o de Ligia Pereira dos Santos, apontam que a imposição de poder sobre o corpo feminino é uma forma de controle social.
Historicamente, as leis sobre abuso sexual refletiram a visão da mulher como patrimônio familiar. Desde as Ordenações Filipinas até o Código Penal de 1940, a proteção legal estava mais voltada à honra da família do que aos direitos da mulher.
O reconhecimento das mulheres como sujeitos de direitos só ocorreu no século passado, com avanços significativos em diversas áreas. A história de Benigna Cardoso, assassinada em 1941, ilustra essa luta. Seu caso, marcado por assédio e resistência, culminou em sua canonização como beata em 2022, quase 80 anos após sua morte.
Maria Marina, morta em 1958, também representa essa luta. A narrativa de sua morte brutal revela a exploração e a violência que muitas mulheres enfrentaram ao longo da história, reforçando a necessidade de discutir e combater a violência de gênero.