Após cumprir pena no Instituto Penal Feminino (IPF) Desembargadora Auri Moura Costa, na Região Metropolitana de Fortaleza, Poliana* reconstruiu a relação com a filha, que tinha apenas três anos quando a prisão ocorreu. A primeira visita, quando a menina tinha cinco, marcou o início de uma jornada de resiliência e esperança.
“Quando ela me chamou de mãe, pronto… ali eu me acabei todinha e pensei: ‘meu Deus do céu, é tão bom saber que ainda existe a esperança de eu ser alguém na minha vida. Porque eu não era nada’”, relembra Poliana, que passou sete anos em regime fechado.
A juíza Kathleen Kilian, do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário (GMF/TJCE), explica que o cárcere afeta as mulheres de forma mais severa, com dupla punição. “Enquanto o homem preso costuma preservar uma rede de apoio, a mulher que ingressa no sistema prisional vivencia frequentemente um processo de abandono afetivo”, afirma.
Dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) mostram que, até o segundo semestre de 2025, 34,8% da população penal feminina no Ceará (1.227 mulheres) têm filhos. No Brasil, 2.652 mulheres com filhos estavam em recolhimento domiciliar.
Após deixar a prisão, Poliana enfrentou o estigma do mercado de trabalho e a falta de moradia. “Eu não tinha como ir atrás da minha filha, porque eu não estava estabilizada”, conta. Após oito meses, conseguiu emprego com apoio da Coordenadoria de Inclusão Social do Preso e do Egresso (Coispe).
O Plano Pena Justa, lançado em 2025, busca superar esses desafios, articulando redes de acolhimento para egressas, com foco em autonomia financeira e cuidado integral. No Ceará, o GMF/TJCE atua em consonância com essas diretrizes.