Em 1929, Isabel Maria da Conceição foi morta a facão pelo marido, Raimundo Nonato da Silva, em Guaraciaba do Norte, no Ceará. O crime teria sido motivado pelo ciúme, após Isabel cortar os cabelos. Quase um século depois, ela é venerada como santa popular, especialmente por mulheres em situação de violência.
Isabel nasceu em 1901, em Campo Grande, atual Guaraciaba do Norte. Casou-se com Raimundo, conhecido como Raimundo Passarinho, com quem teve um filho, Antônio. Segundo relatos de moradoras idosas, em 20 de outubro de 1929, o casal seguia para uma localidade chamada Sussuanha, quando, durante uma discussão, Isabel foi atingida por seis golpes de facão e lançada de um penhasco, na presença do filho de 3 anos.
O corpo ficou preso a um galho, em área de difícil acesso na serra da Ibiapaba. Uma testemunha descreveu: “Era um despenhadeiro medonho e fui me guiando pelas árvores”. Raimundo foi preso, mas nos documentos judiciais tentou justificar o crime: “tinha sido forçado a cometê-lo em vista dos maus-tratos que lhe eram infligidos pela sua mulher, como desprezo e vida desregrada de sambas em sambas”.
A defesa do agressor deslocou o foco para a vida de Isabel. Uma testemunha afirmou que “Isabel não tinha bons costumes, (…) era, por assim dizer, uma mulher de vida alegre”. Apesar da tentativa de desqualificá-la, a memória popular seguiu outro caminho: no local do crime, moradores ergueram uma cruz e, depois, uma capela, onde Isabel passou a ser procurada por fiéis que lhe atribuem graças.
A catequista Maura Nascimento, de 63 anos, conta que alcançou graças por intermédio da “Alma de Isabel”. Ela relata um milagre em 2005, em benefício da irmã, e outra graça quando teve um problema no joelho: “Apelei de novo pra alma santa. Aí fiquei numa das casas, sentada. E disse assim: ‘E agora, Isabel, como é que eu vou andar desse jeito?’. Daqui a pouco passou e eu continuei a caminhada”.
A capela, que hoje acolhe ex-votos e bilhetes, está sem manutenção desde a morte de Antônio, filho de Isabel. Nas paredes, casais grafam seus nomes pedindo proteção. A professora e pesquisadora Daniele Alves explica: “Ela é tida como mulher santa, mas uma santa que protege as mulheres espancadas e as mulheres traídas”. Até Maria da Penha visitou o local nos anos 2000, quando Isabel passou a ser conhecida como “a santa das mulheres em situação de violência”.
